Da alimentação saudável à comunicação: Jovens da Periferia do Recife celebram formatura do Fala que Alimenta
- Angola Comunicação

- 14 de abr.
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Ação piloto encerra ciclo de formação capacitando 40 jovens da periferia do Recife, para atuar como multiplicadores do direito à alimentação e comunicação em seus territórios
Em um clima de celebração e resistência, mais de 40 jovens das periferias do Recife concluíram, no último dia 11 de abril, as atividades do projeto Fala que Alimenta. A "Transformatura", realizada no prédio da Secretaria de Assistência Social (SUAS), no Derby, área central da cidade, marcou o encerramento de cinco meses de uma jornada que uniu a alimentação adequada e a comunicação estratégica.
O curso, que teve início em dezembro de 2025, foi dividido em seis módulos, intercalando aulas presenciais e virtuais. Mais do que teoria, o projeto buscou oferecer ferramentas para que a juventude da Zona Norte à Zona Sul da cidade pudesse pautar suas próprias narrativas. “Foi assim que a periferia pôde se enxergar em histórias positivas, e não só como cenário de fome, violência e exclusão social", destacou a cerimonialista da turma, a cineasta periférica Yane Mendes.

A diretora executiva da Angola Comunicação, Catarina de Angola, reforçou o caráter coletivo da iniciativa. Ela, que também é comunicadora popular e jornalista de formação, lembrou da sua própria experiência enquanto moradora da comunidade de Roda de Fogo, e pontuou que o projeto nasceu da escuta ativa. "É especial construir essa proposta e executar junto com essas parcerias e aprender no dia a dia com vocês. Foi em Roda de Fogo que aprendi a importância de estarmos mobilizados para a luta de direitos. Ficamos muito felizes com essa proposta, porque gostamos do fazer diário da comunicação, mas entendi que as nossas articulações poderiam fazer esses conhecimentos serem partilhados em outra escala”, disse.
A diretora lembrou da trajetória que vem sendo construída a mais de 12 meses ao lado de parceiros como a Umane, de São Paulo, o Ministério de Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) do governo federal e a Prefeitura do Recife. Além dos parceiros, comunicadores da periferia da cidade foram facilitadores dos módulos: Victor Moura, Martihene Oliveira, Flora Rodrigues, Yane Mendes e assessoria pedagógica da jornalista Mariana Reis.
O Fala que Alimenta contou com uma escuta inicial de jovens de diversas iniciativas do Recife, que se dispuseram a compartilhar sobre suas experiências em seus territórios com a pauta da alimentação adequada e saudável e da comunicação como direito humano. A partir daí vieram ideias e estratégias de engajamento e mobilização que já acontecem nas comunidades e bairros da periferia do Recife, capital pernambucana. “Muita gente sai do trabalho para estar aqui com a gente, ou sai daqui pra ir ao trabalho. Saímos dessa formação com um ganho de conhecimentos e de questões para pautar no campo da comunicação e da alimentação. Agora vocês levam o Fala que Alimenta para outros territórios”, concluiu Catarina de Angola.
A secretária de segurança alimentar do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Lilian Rahal, destacou que o Fala que Alimenta foi um plano piloto fundamental para a multiplicação da iniciativa em diversos municípios do país. "Esse projeto foi uma oportunidade de entender o caminho que precisamos seguir, construir conteúdo, junto com vocês, a partir da experiência do Recife, conseguir comunicar com a juventude dos municípios do nosso país. Nós temos o Alimenta Cidades que tem o desafio de olhar para os sistemas alimentares urbanos e entender como acontece em cada um dos municípios. Como a gente consegue ter políticas que cheguem para quem mais precisa, para produzir e consumir alimentos. O Guia Alimentar para a População Brasileira é um tesouro do nosso país, é inovador e premiado no mundo pelo que coloca e por trazer a importância da comida de verdade”, disse a secretária Lilian Rahal.

Para a coordenadora de comunicação da Umane, Isabel Albuquerque, o projeto envolve também questões de um sistema que tenta individualizar a saúde. "Tenho certeza que plantamos uma semente em 40 jovens. A Umane é uma organização que apoia projetos de promoção da saúde que possam mudar a forma como trazemos saúde para a vida das pessoas no Brasil. E o que mais muda o sistema do que formar juventudes para se tornarem comunicadores. Eu já fui jovem e sou comunicadora e sei o poder da comunicação para levarmos informações por aí. Vocês têm um desafio sobre comunicar sobre uma narrativa que está em disputa, que é a alimentação. Ainda de acordo com a coordenadora da Umane, a alimentação é vista pela sociedade como uma escolha individual, embora a luta pelo direito à alimentação seja coletiva. A indústria interfere na forma como a produção de alimentos e rótulos acontecem.
Essa percepção foi compartilhada também por Everton Simão, estudante de Biblioteconomia e militante, morador do bairro da Várzea. Ele conta que sua visão mudou durante o percurso. "Eu achava que tratar de alimentação saudável era chato, porque eu queria comer meu embutido. Mas entendi que debater alimentação é debater como queremos políticas públicas para mudar a realidade da juventude que está na periferia lutando por sua vida", relatou.

A nutricionista Mayara Esteffany Souza Silva, ressaltou a importância de enxergar o que já existe nas comunidades. "Alimentar o ser humano é uma dificuldade por questão de informação. Nem todo mundo sabe que na horta da sua comunidade você pode ter um leque de nutrientes", observou.
O desafio para a gestão pública local será pensar em política pública de sustentabilidade, segundo afirmou a secretária de Combate à Fome da Prefeitura do Recife, Márcia Ribeiro. "Precisamos ouvir esses jovens e saber qual a melhor forma para que o projeto não se acabe na formatura. Precisamos pensar como continuar no monitoramento e como replicamos esse processo nos territórios", defendeu a secretária.
Mesa de debates destaca a fala da juventude
Na programação da tarde, o debate foi coordenado pela comunicadora e cineasta Yane Mendes, que instigou os formandos a pensarem no "pós-projeto". A jovem Graziele dos Santos Lucas e Silva, conhecida como Fulô, é moradora do Morro da Conceição, onde cria seus três filhos. "A comida é cultura e, quando você é de povos de terreiro, ela representa tudo. O Fala vem para mim para perceber o que faltava de segurança alimentar na minha comunidade. Hoje o Morro tem uma Cozinha Solidária que abraça o Alto José do Pinho, Linha do Tiro e Bomba do Hemetério. Tem comida de graça no Morro", celebrou Fulô.
A jovem Steff Souza também trouxe a experiência da comunidade da Guabiraba, onde o curso despertou o desejo por infraestrutura local. "O Fala provocou na comunidade onde vivo a necessidade de uma horta coletiva e de termos mais cozinhas solidárias", afirmou.

O evento foi encerrado com sorteios, música celebrando o novo ciclo dos agora comunicadores e multiplicadores do direito humano à alimentação saudável nos territórios do Recife.




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