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Design não se faz só com técnica, se faz com escuta

  • Foto do escritor: Angola Comunicação
    Angola Comunicação
  • 13 de jul.
  • 3 min de leitura

por Carol Barreto*

Já falamos aqui na Fuá em outros momentos sobre como nosso trabalho parte sempre da escuta ativa. E isso não é apenas um termo que utilizamos, faz parte da nossa cultura institucional. Ao chegar nos territórios, nas reuniões, nos eventos, em atividades diversas, nós chegamos com olhos e ouvidos atentos. Isso porque partimos do princípio que, ao trabalhar com comunicação, não existe isso de “dar voz” a alguém. Todo mundo já tem a sua voz, e muitas vezes já está realizando sua comunicação, e nós vamos colocar nossos conhecimentos à serviço das causas que podemos ecoar, amplificar. E, para isso, precisamos ouvir e entender a realidade de cada organização, projeto, e iniciativa.


Em maio, participei, enquanto coordenadora de design da Angola Comunicação, da Mostra Feitiço, uma iniciativa para fortalecimento do mercado editorial independente e produção de design no Recife (PE). A conversa que participei tinha como tema “Design e Trabalho: tensionamentos entre o que se cria e o que se vive” e falamos muito sobre a diversidade do nosso trabalho. 


Éramos três convidadas e eu era a única que trabalha com design para comunicação popular. E, em determinado momento, descrevendo as etapas para o desenvolvimento de uma identidade visual, eu falei sobre a Reunião de Escuta, que é um momento aqui na Angola Comunicação onde ouvimos os clientes sobre o que se espera da demanda discutida. As organizações têm espaço para falar, para sonhar, questionar, e nós que vamos produzir, escutamos, ponderamos, pensamos junto, sugerimos. De forma geral, nesta reunião, o espaço maior de falar é de quem nos contrata para a produção de qualquer serviço.

 

Essa fala reverberou muito na roda de conversa, e trocando com minhas colegas de debate, entendi que parar para escutar é algo muito raro dentro das dinâmicas de produção de design, ao menos no design comercial. Em geral, no mercado, se faz uma reunião de briefing onde um questionário bem objetivo é aplicado e, não se tem muito tempo para aprofundar sobre a demanda. Penso que essa lógica parte muito da ideia de que o profissional sabe tudo sobre o necessário para a criação, e pensando na parte técnica, realmente tem que saber, mas, entendemos por aqui que o cliente não pode ser visto como uma pessoa leiga, que não sabe absolutamente nada sobre comunicação e por isso não tem muitas contribuições a fazer além de explicitar suas preferências para a arte. Criação é muito subjetivo e escutar as particularidades do cliente e da demanda faz total diferença nessa subjeção, nessa formação de ideias, principalmente pensando na criação para comunicação de causas. 


Carol Barreto durante participação em mesa debate na Mostra Feitiço 2026. Foto: Reprodução / Rayanne Moraes
Carol Barreto durante participação em mesa debate na Mostra Feitiço 2026. Foto: Reprodução / Rayanne Moraes

Trabalho com design para comunicação popular há anos e aprendi a me despir de alguns apegos, da ideia de que só o profissional detém o conhecimento, e entendi que isso é importante demais para a troca. Aprendi também que só escutando ativamente é possível ter uma produção em comunicação respeitosa, eficaz e alinhada às expectativas do cliente. 


E isso transborda o campo do design dentro da Angola Comunicação. Realizamos a escuta ativa desde a elaboração de propostas, buscando entender bem as necessidades de cada cliente para ofertar produtos e serviços que se alinhem às suas demandas de forma estratégica. Até a realização de planejamentos de comunicação, consultorias, produtos audiovisuais, editoriais e outras demandas. É desafiador através da comunicação elaborar e materializar algo que represente uma comunidade, um coletivo, uma causa. E é por isso que precisamos estar atentas ao que é dito em cada momento de encontro e troca, porque é nessa escuta que mora a nossa inspiração.


E para realizar esses processos de uma forma mais estruturada e estratégica, nós elaboramos algumas ferramentas exclusivas e personalizadas a partir de técnicas de ideação ágil, que são aperfeiçoadas através de experimentação e testes. Essas ferramentas guiam as escutas, que passam a ser momentos de co-criação coletiva e colaborativa junto com as equipes das organizações. Isso garante a participação de quem precisa se reconhecer no resultado final daquele trabalho, além de diminuir o retrabalho que podemos ter para realizar possíveis ajustes.


Foi bom demais ter um espaço para poder falar do nosso modo Angola Comunicação de fazer e escutar e que as estratégias que usamos fazem sentido na nossa vida além do trabalho. 


*Carol Barreto é designer, artista visual e coordenadora de design na Angola Comunicação.


 
 
 

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