Entre afetos, comida e território: jovens do Recife constroem narrativas sobre direitos humanos, a partir da alimentação e comunicação
- Angola Comunicação

- 26 de jan.
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Atualizado: 27 de mar.
Um dia de partilha de histórias e narrativas de vidas interligadas aos diversos territórios do Recife (PE), deu o tom da primeira aula presencial da ação Fala que Alimenta (FQA), que aconteceu no dia 24 de janeiro, no Compaz Dom Hélder Câmara, localizado na comunidade de Joana Bezerra. Cerca de 40 jovens com idades entre 18 e 29 anos compartilharam experiências sobre comunicação popular e direito humano à alimentação adequada e saudável de bairros e comunidades onde vivem, neste que foi o segundo módulo da formação.

Durante a abertura da primeira aula presencial, a diretora executiva da Angola Comunicação, Catarina de Angola, destacou a riqueza do processo que vem sendo construída entre parceiros. “Pra gente da Angola Comunicação é uma ação muito cara, pois estamos interagindo e conversando com jovens de vários territórios do Recife para trocar e aprender sobre alimentação e comunicação. Temas que já estão na história da Angola. Hoje, pudemos contar com Martihene Oliveira, pessoa que admiramos. Fizemos o resgate da nossa história, pudemos exercitar a criatividade da juventude em trabalhos em grupos. Reafirmo o quão rico tem sido esse processo”, avaliou Catarina.

A jornalista, comunicadora e coordenadora do Coletivo Sargento Perifa, Martihene Oliveira, facilitou o debate. Para ela, por meio da memória afetiva é possível fazer com que o público entenda uma mensagem, desde que se fale de uma forma assertiva. “Quando falamos de comida falamos de memória, afetos, sentimentos, de história, de territórios e inclusive de dores. Em se tratando de um país que vive num universo de subdesenvolvimento, tem muita coisa que vai mexer. A comida está na vida de todo mundo, na vida do rico e do pobre. É o que une qualquer encontro, reunião, evento. Por isso, nesta aula iremos focar na linguagem para que seja compreendida e para que a notícia tenha um efeito”, observa a jornalista.
Entre as trocas, a turma apresentou atividades construídas a partir da aula inaugural, que aconteceu em dezembro de 2025. O jovem Ruick Pereira da Silva, de 26 anos, morador da Linha do Tiro, estuda moda e designer voltado para a costura criativa e o design sustentável. Ele conta que nasceu e foi criado na periferia do Recife. “Desde pequeno lembro de ver as pessoas fazendo a xepa na feira livre. É quando uma pessoa passa recolhendo tudo aquilo que foi descartado” ,explicou.
No momento de construção das atividades intermodulares, ele criou o personagem X-Ratão, uma espécie de hambúrguer-rato que traz a mensagem dos cuidados com a alimentação de uma forma mais irreverente e cômica. Para Ruick, o FQA representa uma conexão com o território e as narrativas. “A insuficiência alimentar assola muitos jovens que moram sozinhos, feito eu. A gente não leva para os jovens as questões que acabam influenciando como se alimentam. A minha ideia é levar a mensagem para jovens da periferia e fazer ele furar a bolha de onde ele está. Sabemos que na periferia é muito difícil esse tipo de informação chegar. Que o jovem possa entender que ele pode montar cardápios mais saudáveis”, concluiu.

Durante a formação, a juventude da periferia recifense falou sobre a realidade que é a base de sustentação de cada território da cidade, seja o rio capibaribe e beberibe, o mangue, palafitas, morros e/ou as ocupações. A diversidade do curso tem proporcionado uma escuta que tem sido fonte para o planejamento de políticas públicas para a cidade. A gestora da unidade de Segurança Alimentar e Nutricional da Prefeitura do Recife, Natália Outtes, que está vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Social, Direitos Humanos, Juventude e Políticas sobre Drogas, destaca que o Fala que Alimenta contribui de diversas formas. “Quando a gente coloca o jovem para se comunicar, a gente está pedindo que ele fale sobre a comunidade dele, o que acontece em âmbito familiar, com amigos. Isso ajuda a fazer políticas públicas mais assertivas à população. Principalmente para a população jovem do Recife. Já que o Recife é uma cidade jovem. Então precisamos ouvir mais as juventudes. O FQA é a juventude falando com a gente sobre o que é preciso para promover uma alimentação saudável”, reforçou.

A maior parte da turma é formada por pessoas periféricas e negras. Também há uma forte presença de jovens LGBTQIAPN+. Grupos que são essenciais para esse debate no Recife e também em todo o país, ampliando os olhares e aprofundando a leitura de realidade e contexto mais plural. A jovem Pétrica Henrique do Carmo, de 25 anos, estudante de engenharia florestal, tem também formação em comunicação visual e artes visuais. Sempre atuou com projetos voltados para alimentação e juventude. Moradora do Fundão, no entorno do rio Beberibe, Pétrica conta que vive com a família numa casa com quintal. Um privilégio para poucos, desde que o Recife passou a ter as casas substituídas por edifícios, em virtude da especulação imobiliária. “Tenho um quintal produtivo onde produzimos frutas, verduras e legumes. Meu pai e minha mãe sempre plantavam o que queriam comer. Sempre tive em casa o coentro que a gente mesmo produz. Quis entrar no Fala que Alimenta para aprender mais sobre comunicação. Você pode produzir alimentação saudável em casa e trazer para sua cozinha. Entre os jovens acho importante os temas da agricultura familiar, produção de alimentos saudáveis. Trazer essas pautas para juventude e pessoas mais velhas é necessário. Acredito que fazer vídeos, adesivos, placas nas comunidades pode fazer a pessoa mudar o olhar e fazer acontecer”.
A coordenadora de comunicação da Umane, Isabel Albuquerque, uma das organizações realizadoras da iniciativa, conta que o Fala que Alimenta surgiu de um desejo do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à fome (MDS) do governo federal de se comunicar com uma faixa demográfica onde existe um vazio. Para ela, crianças e jovens em idade escolar têm um contato direto com políticas sobre alimentação dentro das escolas. Mas, a juventude a partir dos 18 anos tem uma lacuna.
“É justamente nesse momento que estamos formando o nosso pensamento crítico. A organização Umane veio com o objetivo de colocar mais no concreto o desejo de trabalhar com a juventude e o tema da comunicação e alimentação adequada.

“Acreditamos que comunicação e saúde são essenciais para a construção de políticas públicas. Temos que olhar para a comunicação como uma ferramenta de transformação, principalmente nas periferias. Ainda vivemos numa sociedade muito desigual e esse direito básico da alimentação ainda acaba sendo negado. Temos também os pântanos e desertos alimentares, onde estão parte da sociedade que só acessam produtos ultraprocessados”, pontuou Isabel.
O assessor da coordenação-geral de Promoção da Alimentação Saudável do MDS, Luiz Miguel Valente, destaca que em meio a uma era digital o acesso à informação é estratégico para transformar realidades de jovens de comunidades do Recife. “Sabendo disso, o MDS junto a parceiros estratégicos como a Angola Comunicação, a Umane e a Prefeitura do Recife, estão tornando realidade uma formação em comunicação voltada para jovens no intuito de transformar os territórios, fazendo com que esses jovens se tornem agentes transformadores. Nesse segundo módulo estou vendo jovens inseridos no processo e entendendo o poder da comunicação. E eles começam a se enxergar como parte no modelo de transformação. Acho que um dos caminhos é a gente conseguir democratizar a informação”, finalizou.

A ação Fala que Alimenta é uma parceria entre a Prefeitura do Recife, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) e a Umane, com produção e execução da Angola Comunicação, e acontece em formato híbrido, com seis módulos no total, sendo três momentos remotos e três momentos presenciais, entre os meses de dezembro de 2025 e abril de 2026.




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