O presencial como respiro: quando ficar offline virou luxo.
- Angola Comunicação

- 11 de mai.
- 3 min de leitura
por Catarina de Angola*
Depois de tantas semanas mergulhada nos conteúdos sobre inteligência artificial aqui na Fuá, o que mais me chamou atenção nesses momentos de pesquisa não foram só as ferramentas, os usos possíveis, os riscos. Foi também a percepção de que enquanto tudo acelera, cresce também um movimento na direção oposta, de gente buscando silêncio, observação, presença, tempo para pensar antes de produzir.
Essa é uma sensação que aparece nas minhas conversas do dia a dia, com amigas, com a equipe da Angola Comunicação e principalmente com outras profissionais de comunicação. É uma correria que não termina, alimentada por informações que chegam o tempo todo, ferramentas novas que precisam ser aprendidas ontem, canais que precisam ser atualizados, tendências que precisam ser acompanhadas. E no meio disso, fico me perguntando: a gente está se comunicando melhor por causa de tudo isso, ou está só correndo ainda mais sem conseguir colocar ideias e projetos em prática?
Descobri também que essa sensação de correria já foi nomeada, chama-se FOBO, sigla em inglês para Fear of Becoming Obsolete, ou medo de ficar para trás. É a sensação de que, mesmo trabalhando, estudando e entregando, parte do que a gente faz pode deixar de importar nos próximos meses ou anos, especialmente com o avanço da inteligência artificial. Não é uma sensação isolada, é coletiva, e está descrita em pesquisas e conversas com lideranças do mundo corporativo.
E aqui um dado que me chamou atenção: quem mais usa IA é também quem mais está cansada dela. Reportagem do The Verge mostra que a Geração Z, justamente o grupo que adotou a tecnologia mais rápido, é também o mais crítico em relação a ela, pela sensação de conteúdo genérico e pela pressão implícita de ter que usar IA em tarefas que essas pessoas prefeririam fazer de outra forma (fonte: The Verge, Gen Z and AI). Eu sinto falta de dados voltados pra realidade brasileira, mas já é um parâmetro pra gente ir observando mais esse movimento.

No Recife, cidade onde moro, aqui em Pernambuco, tenho percebido cada vez mais espaços presenciais ganhando força, como clubes do livro, oficinas de bordado, encontros para pintar taças, aulas de cerâmica e argila, rodas de conversa, espaços que pedem tempo e presença.
Reportagem recente da CNN Brasil trata desse movimento e o chama de novo luxo: conseguir ficar offline. O texto traz a perspectiva de que a hiperconexão impede que a gente elabore o que vive, e que desconectar virou, hoje, um sinal de cuidado consigo mesmo.
Juntando isso ao que vejo nas conversas com profissionais de comunicação, acredito que a gente está procurando lugar para respirar, espaços onde o tempo não é medido em notificação, em prazo de entrega ou em algoritmo.
Isso não é nostalgia, e não é defender que a gente largue o digital, até porque acho isso já impossível enquanto sociedade, mas também porque o trabalho com comunicação acontece, em grande parte, dentro dele. Mas é reconhecer que o corpo e a mente precisam de outros ritmos para continuar funcionando bem, e que comunicação feita por gente esgotada não é comunicação estratégica, é adoecimento.
Para quem trabalha com causas, isso importa ainda mais. Comunicar para mobilizar, para transformar, para disputar narrativas em um mundo barulhento exige escuta, tempo de pensar e objetividade no que se quer dizer.Aqui na Angola Comunicação, é exatamente esse o trabalho que a gente faz com as organizações parceiras: ajudar a planejar o ritmo, elencar prioridades, escolher canais com critérios, construir uma comunicação que caiba no tamanho real da equipe e do orçamento. A gente acredita que comunicação estratégica não é a que faz mais, é a que faz com sentido. E para isso, é preciso parar antes de começar.
Se você está sentindo essa correria na sua organização, ou se a sua equipe de comunicação está naquele lugar de não dar conta (escrevi sobre isso aqui neste outro texto), a gente pode conversar. Nossas consultorias começam exatamente por aí: pela escuta antes do plano.
*Catarina de Angola é mãe, jornalista e consultora em comunicação. Fundadora e diretora executiva da Angola Comunicação.




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