O que eu faço com IA todo dia e o que está por trás das ferramentas
- Angola Comunicação

- há 3 dias
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por Catarina de Angola*
Hoje a gente continua essa conversa sobre Inteligência Artificial. Semana passada, compartilhei que este mês a Fuá seria um espaço de reflexão sobre o tema. Mas nessa conversa, eu tenho percebido que a necessidade de quem quer trocar sobre o tema é pelo concreto: o que eu posso fazer com ela? No que ela de fato me ajuda? Que ferramentas você usa e para quê?
Eu uso IA todo dia.
Uso pra transcrever reuniões e entrevistas (nossa, esse já foi boa parte do meu trabalho e o que mais me tomava tempo na vida). Pra registrar ideias que chegam no meio de uma conversa e que eu precisaria organizar depois. Pra resumir relatórios longos antes de começar a leitura completa. Pra traduzir pequenos textos que já escrevi e quero checar antes de enviar, ou documentos públicos completos que quero ler. Pra estruturar o raciocínio quando tenho muita coisa na cabeça e preciso de ordem antes de qualquer ação. Pra pensar fluxos de trabalho. Pra pesquisa (aquela que antes usava o Google. Usei IA pra pesquisa de dados deste texto, por exemplo). Pra gerar imagens e apresentações.
Para mim, são as ferramentas de IA fazendo parte do processo operacional, da pesquisa, da organização, e isso tem mudado bastante a minha forma de trabalhar. Sei que faz diferença também pra quem toca projetos complexos com equipes pequenas e muita demanda ao mesmo tempo, que é exatamente o perfil de muitas organizações sociais.
Só que tem coisas bem importantes que talvez eu nunca vá deixar de dizer. A IA erra, inventa fonte, confunde dado, apresenta informação com uma segurança que não condiz com a realidade. Alucina! Que é um termo usado pra quando os modelos de linguagem generativa criam respostas falsas, incorretas ou sem sentido, apresentando-as de forma confiante e coerente. Por isso, tudo que envolve pesquisa precisa de verificação, mesmo antes da IA essa deveria ser a regra. A ferramenta pode te ajudar a organizar e a encontrar caminhos, mas a checagem é sua, assim como precisamos checar o que chega pelo Whatsapp. E com certeza, quem tem grana pra pagar por planos pagos das ferramentas vai estar em vantagem em relação a quem não tem, porque a alucinação tende a ocorrer com mais frequência nas versões gratuitas ou modelos mais simples, o que não é uma regra absoluta. Assim como quem tem acesso a mais informações, até de checagem, também vai estar em “vantagem”!.
E o que está por trás disso tudo? Desigualdade.

Não estamos nos centros onde essas ferramentas são pensadas. Quando a IA chega pra nós, ela já vem com decisões tomadas, com lógicas embutidas, com uma visão de mundo que é, no mínimo, racista e classista. Isso aparece nos vieses dos modelos, nas imagens que geram, nos textos que produzem, nas línguas que dominam melhor, nas realidades que conhecem e nas que ignoram. Os algoritmos não criam preconceitos do zero, mas reproduzem padrões pré-existentes nos dados. Na prática, as desigualdades sociais passam a ser automatizadas.
E o acesso também é desigual, de um jeito que não é acidente. Segundo dados da pesquisa TIC Domicílios 2024, compartilhados pela Pública, no Brasil, cerca de 29 milhões de pessoas não acessam à internet. Desses, 82,7% vivem em regiões urbanas, 59% são pretas ou pardas, 55% pertencem às classes D e E, e 55% são mulheres. Globalmente, segundo estudo de 2025 do Comitê Gestor da Internet (CGI.br), 60% das patentes de IA estão nos Estados Unidos e na China, e 40% das pesquisas são financiadas por apenas 100 empresas. As big techs preveem investir mais de 600 bilhões de dólares em IA só neste ano. É concentração de poder.
O que tenho percebido é que estamos num momento em que não tem pra onde fugir. O mundo está mudando e ignorar não é estratégia, mas entrar sem consciência também não é, afinal leitura de contexto é parte do diagnóstico em um planejamento. A gente vai usar ou já está usando a IA (você também, né?), e é importante também entender que este é um momento de teste e transição. Por isso, precisamos estar em alerta, com atenção ao que produzimos a partir da IA e ao que informamos a ela.
Mais uma vez, reforço a importância das conversas. Que converse dentro das organizações sobre os limites do uso. Que não passe dado sensível de comunidades, de beneficiários, de parceiros por nenhuma dessas ferramentas. Que não delegue a voz e a criatividade da organização pra uma máquina treinada com outra visão de mundo.
E que escute. Escute muito. Porque este não é um momento de respostas prontas. É um momento de muita pergunta, de teste, de observação.
Semana que vem volto pra essa conversa, mas se quiser aprofundar na sua organização, numa formação, numa consultoria, é só chamar, ou trocar com a gente por e-mail. Vamos adorar te escutar!
*Catarina de Angola é mãe, jornalista e consultora em comunicação. Fundadora e diretora executiva da Angola Comunicação.




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