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A disputa de narrativa começa muito antes do voto

  • Foto do escritor: Angola Comunicação
    Angola Comunicação
  • 4 de ago.
  • 3 min de leitura

por Catarina de Angola*

Em junho eu estive em alguns lugares da Europa Ocidental e entrei em muitos museus, e num deles fiquei um tempo parada na frente de uma escultura de mais de cinco metros, esculpida à mão, numa peça única de mármore, séculos atrás, sem nenhuma das tecnologias que a gente tem hoje. Vi pinturas que retratam o cotidiano, fotografias que denunciam guerras e violações de direitos, obras feitas pra celebrar a vida e o prazer, e depois de tantas semanas no primeiro semestre conversando aqui na Fuá sobre inteligência artificial, e depois do SXSW London, que falou muito de criatividade e de humanidade, estar diante daquilo me deu um respiro sobre o que a criação humana é capaz de fazer.

 

E foi ali que outra pergunta começou, porque aqueles territórios foram, antes, de outros povos, invadidos, cristianizados, e a partir daí passaram a contar outras histórias sobre si mesmos e sobre o mundo. Eu viajo sempre com esse olhar em relação aos países que colonizaram a América Latina e o continente africano, mas dessa vez a pergunta veio mais pro presente, sobre quem, hoje, tem os meios pra decidir qual história vai circular e o que vai virar história.

 

Porque o jeito disso acontecer mudou de forma, mas não de natureza, e quem tem poder político e econômico segue tendo os meios de produção e de comunicação. E agora tem também as plataformas e a infraestrutura de dados, com poucas empresas e poucos bilionários decidindo o que circula, em que velocidade e pra quem. Enquanto as organizações e os movimentos que trabalham por direitos humanos, por diversidade e por pluralidade disputam narrativa com muito menos recurso, muito menos alcance e muito mais trabalho, todo dia, com equipes pequenas e orçamentos apertados.

Equipe da Angola Comunicação no seu planejamento interno, em maio, onde,  junto com outros temas, as eleições foram discutidas e nossos passos e narrativas definidos coletivamente. Foto: Angola Comunicação / Jéssica Bernardo
Equipe da Angola Comunicação no seu planejamento interno, em maio, onde,  junto com outros temas, as eleições foram discutidas e nossos passos e narrativas definidos coletivamente. Foto: Angola Comunicação / Jéssica Bernardo

Foi pensando nisso que voltei pra Sankofa, um dos símbolos adinkra de uma região que hoje reconhecemos como Gana, no continente africano, representado por um pássaro que caminha pra frente com a cabeça voltada pra trás, carregando um ovo no bico, e que nos ensina que podemos buscar sabedoria nos ensinamentos ancestrais pra compreender o presente e construir o futuro. Isso me interessa aqui porque não se trata de tomar o colonizador como referência do passado, e sim de lembrar que existiram e existem outras formas de produzir comunicação, conhecimento e arte, feitas por outros povos, em outros territórios, com outros tempos, e que essa produção segue viva nas comunidades onde a gente trabalha hoje.

 

Daqui a pouco, em outubro, o Brasil vai às urnas, e a disputa de narrativa desse processo já começou faz tempo, muito antes de qualquer campanha oficial. A Angola Comunicação já comunicou em momentos eleitorais antes, com Eu Voto em Negra, com Meu Voto Vale Muito, e produzindo conteúdo pra várias organizações em anos eleitorais, na defesa de direitos, e o que essa experiência ensina é que a organização que só começa a se movimentar quando a campanha já está na rua chega pra reagir ao que os outros pautaram, e reagir é sempre menos eficaz do que ter decidido antes o que se quer dizer.

 

Em junho, a gente já começou essa conversa por aqui, quando falamos do que significa comunicar mobilização social neste ciclo e, na edição seguinte, de IA, desinformação e das particularidades regionais que o São João nos lembra. Vale voltar nesses dois textos, porque o que eles apontaram segue valendo, e o que eu acrescento agora é mais direto: definir já, e não em setembro, qual é a mensagem central que a organização vai defender e em que ela não vai entrar; combinar internamente quem responde, em quanto tempo e com qual tom quando a desinformação chegar, porque ela vai chegar; e planejar o que acontece depois de outubro, já que o trabalho de disputar narrativa não termina no resultado da eleição.

 

Nas próximas semanas, essa vai ser a conversa aqui na Fuá e vamos trazer o que a gente aprendeu nesses processos, o que estamos observando agora e o que as organizações precisam considerar pra atuar nesse ciclo sem improviso. E não vai ser só conversa: semana que vem nós da Angola Comunicação lançaremos uma campanha nossa pra estas eleições, e eu conto tudo por aqui. Seguimos também disponíveis pra construir campanhas de mobilização social junto com quem estiver nessa disputa, então quem quiser conversar mais é só responder este e-mail, a gente vai adorar te escutar.


*Catarina de Angola é mãe, jornalista e consultora em comunicação. Fundadora e diretora executiva da Angola Comunicação.


 
 
 

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