O esporte como referência de mobilização social

por Eduarda Nunes*
Comunidades geram um engajamento genuíno que sustentam valores e mensagens a perder de vista. O Santa Cruz Futebol Clube é um grande exemplo disso.
Não é uma novidade que a gente que trabalha com comunicação vive com o ouvido atento na escala 7X0. Tudo acaba virando referência, sendo positiva, negativa, ou reflexão. Eu sou jornalista formada há quase 10 anos, ativista pelo movimento negro há mais de 10 e tricolor do Santa Cruz Futebol Clube, time pernambucano, há quase 30 (todo o meu tempo de vida). E acompanhar os altos e baixos do meu time me ensina muita coisa, inclusive pro meu campo profissional.
No dia 03 de outubro, um dia antes das eleições do primeiro turno, o Santinha finalmente voltou à série B depois de anos disputando a série C, D e até ficar sem divisão. Anos difíceis, mas que foram acompanhados do engajamento dos torcedores. O Santa Cruz seguiu colocando milhares dentro do estádio e outros milhares que não acompanham o calendário do futebol defendendo todo o processo do time para quem viesse criticar ou fazer graça (me incluo nessa). Não é à toa que muita gente afirma que o Santa Cruz deixou de ser um time de futebol e se tornou um movimento.

Em 03 de fevereiro de 1914, o Santa Cruz foi criado, na frente da Igreja de Santa Cruz, no Recife, por jovens periféricos de 14 e 16 anos, negros excluídos do esporte. A ideia era democratizar o acesso ao futebol, que é febre nacional, mas que à época não permitia que gente negra fizesse parte. Um time que fez muito na cidade nesse período quase imediato de pós-abolição da escravatura e que, desde sempre, tem sua marca cravada na identidade popular, democrática e inclusiva. Não é à toa que ele tem a alcunha de ser o Mais Querido das Multidões: o Santa sempre esteve ligado às classes populares e trabalhadora e ainda hoje isso fortalece toda a comunidade que foi criada em torno do time. Não é todo mundo que tem noção do histórico profundamente político do Santa Cruz, mas é todo mundo que sabe que resiliência e alegria é a via de regra de quem se propõe a acompanhar a nação coral (quem só consegue amar o time quando ele tá em alta, tem que ir pra outro, de fato).
Mesmo tendo um passado com muitas glórias (incluindo uma Fita Azul do Futebol Brasileiro), a trajetória mais recente do Santa colocou a própria torcida à prova mais vezes do que gostaríamos. É dificuldade financeira, é jogo importante que se perde no último minuto do segundo tempo, é jogo do acesso que depende do resultado de outro jogo como foi em 2025, é estádio que precisa urgente de reforma e, em todos esses cenários, os tricolores seguem sendo a torcida mais apaixonada do Brasil, segundo nós mesmos que fazemos essa torcida acontecer (hehe).
São 112 anos cultivando a comunidade e gerando mobilização popular mesmo nos momentos em que a atuação mais fica a desejar. A última vez que o Santa Cruz jogou a série B, em 2017, eu não tinha nem começado a escrever o meu trabalho de conclusão de curso da universidade. De lá pra cá, não só eu, mas milhares de tricolores mantiveram a fé em dias melhores pra esse time de três cores - mesmo quando não estava fazendo sentido.
Nesses dias de segundo turno de eleição, temos visto como a comunicação digital tem sido disputada e como várias pessoas têm inovado para tornar a fé na democracia mais “viral”, com mais engajamento, mas também reacendendo estratégias que já são utilizadas pelos movimentos sociais de base. As manifestações pela democracia e pela reeleição do Presidente Lula deixaram muito nítido como a alegria e a cultura são a força motriz de quem vota por justiça social, em detrimento da extrema-direita que reúne pessoas para incitar ódio e desproteção legal aos grupos sociais que já vivem profundas vulnerabilidades.
Que a justiça social se sobressaia!
Até a próxima Fuá.
*Eduarda Nunes é jornalista, constrói no movimento de mulheres negras de comunicação independente e popular do Recife e é mãe. Na Angola Comunicação, é assessora de comunicação.




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