Quem contava a história antes da IA existir?

por Catarina de Angola*
Nas últimas semanas, temos conversado muito sobre o uso de Inteligência Artificial, seja em eventos ou na facilitação de processos com organizações sociais. Olhando para demandas que surgem, avaliando processos, pensando protocolos e políticas internas de uso. Uma área de atuação que vem crescendo pra gente e o que temos confirmado por aqui é de que a IA não é assunto que se esgota numa série de textos, ela vai continuar aparecendo por aqui sempre, porque já faz parte de muitos momentos da nossa vida e do nosso trabalho. Imagino que do seu também.
Numa dessas conversas, reforçamos a importância da checagem, de checar dados e informações que a IA entrega. Conversando sobre isso, fiquei me lembrando que esse debate sobre não confiar nos meios de informação hegemônicos não é novo. Quem tinha o poder da imprensa quando ela foi criada? Quem detinha nas mãos o poder de registrar histórias nos livros e distribuir pelo mundo? Quem controla os meios de comunicação de radiodifusão (TV e rádio) até hoje? E no hoje, quem detém poder sobre a tecnologia da IA? Como ao longo dos tempos nos organizamos para contrapor esse monopólio de conhecimento? Com a imprensa negra, feminista, operária, com o jornalismo popular, a comunicação livre e independente, etc.
Eu lembro da minha mãe indo à escola questionar a escolha dos livros paradidáticos, quando ela percebia neles conotações racistas. E não foi uma vez só, presenciei algumas vezes esse debate entre nossa família e a escola, e aprendi com isso também. Ela sabia que aqueles materiais poderiam ser questionados, mesmo vindo de um meio oficial como a escola, porque tudo que a gente acessava ali também carregava uma visão de mundo, e que essa visão de mundo não era neutra. E não existia a IA nesse tempo.

Nessas escutas que temos feito, muita gente lembra do uso das enciclopédias para pesquisa, dos livros impressos para leitura, e tem muita gente com saudade desse tempo. Mas é importante lembrar que esse material continua existindo, a gente continua conseguindo acessar muita coisa ainda de forma analógica, mas também lembrar que quem constrói esse conhecimento tem um viés de mundo. E por isso, precisamos continuar checando informações, selecionando as leituras que vamos fazer tanto no analógico quanto no digital. Antes da IA, o conhecimento sistematizado que a gente aprendeu a confiar também foi produzido a partir de um lugar, e esse lugar quase sempre foi o da lógica do Ocidente, concentrado nas mãos de homens, brancos e ricos, do Norte Global.
Então a checagem não é coisa nova, nem exclusiva da IA. Ela é necessária em qualquer contexto de pesquisa, em qualquer ferramenta que a gente use como fonte de informação. Vamos continuar com atenção redobrada com a IA, porque a informação está cada vez mais acelerada, e isso pede mais cuidado. Mas não podemos deixar de questionar e fazer leitura crítica de tudo que acessamos, de como nos informamos e de que informações usamos como base de conhecimento, seja qual for a ferramenta.
Quem quiser conversar mais sobre isso, na sua organização, é só chamar a gente ou responder este e-mail. Vamos adorar te escutar!
*Catarina de Angola é mãe, jornalista e consultora em comunicação. Fundadora e diretora executiva da Angola Comunicação.




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