Sair da bolha também pode ser sair das redes sociais
- Angola Comunicação

- há 2 dias
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por Catarina de Angola*
No domingo passado, dia 16, começou oficialmente o período de campanhas neste ciclo eleitoral e o feed das minhas redes sociais virou um mar de campanhas. E eu estava eufórica querendo ver tudo, porque pessoalmente gosto demais de viver esse período. Candidatas, candidatos, atos de abertura, primeiras peças, primeiros vídeos, que em geral são emocionantes. Só que depois de um tempo rolando a tela percebi que todo mundo que aparecia pra mim era do mesmo espectro político que eu.
E fiquei querendo saber mais de outros candidatos, como a extrema direita, por exemplo, estava abrindo suas campanhas? Pra isso, eu precisei ir no perfil de cada candidato que me veio à memória para dar conta da minha curiosidade, mas também pra fazer a minha leitura de estratégias de comunicação. Eu precisei buscar essas informações, porque o algoritmo não ia me entregar isso sozinho e isso ele já tinha decidido por mim.
E essa constatação me levou direto pra 30 anos atrás na periferia do Recife, onde nasci, que quando era criança, minha mãe fazia questão de que a gente vivesse o período de campanhas de perto. A gente ia pegar material nos comitês, via os carros de som passando com propaganda, via candidatos chegarem pra caminhadas, etc. E naquele tempo, fosse qual fosse o seu candidato (e o orçamento de campanha dele), a campanha chegava pra todo mundo igual. Se ele decidisse ir no meu bairro, ninguém escolhia por mim quem ia aparecer na minha rua.
Hoje as campanhas ainda tomam as ruas, mas elas acontecem fortemente nas redes sociais, porque é lá que estamos a maior parte do tempo dos nossos dias. E nelas, de forma orgânica, a gente não vê mais a campanha inteira, a gente vê o recorte de campanha que o algoritmo decidiu que a gente devia ver. E isso não é só um detalhe de experiência pessoal, é uma mudança estrutural em como a informação política circula, e em como as organizações que defendem direitos também circulam, ou deixam de circular, dependendo do que a plataforma escolhe entregar. Por muitas vezes aqui já conversamos sobre o posicionamento político das big techs.

Ao longo dessa série sobre comunicação e eleições, fui puxando esse raciocínio aos poucos. Em julho, falamos que a disputa de narrativa começa muito antes do voto, e que quem não definiu lá atrás o que estava defendendo chegou atrasado na campanha. Depois, na edição seguinte, refletimos sobre que não existe fórmula única de comunicar eleição pra quem defende direitos, porque cada organização, cada campanha de sociedade civil, encontra seu próprio jeito de fazer isso, a partir do território e do público que atende. E na edição da semana passada, reforcei que comunicar em ano de eleição é um ato político, e que não se posicionar também precisa ser visto como uma escolha, neutralidade não existe.
Hoje toda comunicação digital, por mais bem planejada que seja, passa a depender de canais que não são nossos, que operam por lógica que a gente não controla, e que decidem quem recebe o quê. Precisamos então encontrar outras formas de dialogar com as nossas bases, nosso público direto de interação, retomando o controle sobre quem a organização alcança, sem depender do que o algoritmo decide entregar. Já pensou em como poderia fazer isso? Como você dialogaria hoje com a sua base de atuação se não existissem as redes sociais?
Hoje encerramos a série comunicação e eleições e os textos anteriores você pode encontrar aqui em nosso blog. Mas com certeza ainda vamos voltar com esse assunto por aqui, afinal comunicação e ação política estão entrelaçadas.
*Catarina de Angola é mãe, jornalista e consultora em comunicação. Fundadora e diretora executiva da Angola Comunicação.




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