São João, eleições e a IA no meio da conversa
- Angola Comunicação

- há 2 dias
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Por Catarina de Angola*
Estamos a poucos dias das comemorações do São João. Aqui no Nordeste, a festa é da colheita, é de fé, é de família reunida, é de fogueira, forró, comida farta, casa cheia. É um mês de relação direta com a cultura alimentar e com o ciclo de plantio, com o trabalho da agricultura familiar, que produz a maior parte da comida que chega na mesa dos brasileiros. Nascemos no Nordeste e, por isso, respeitamos esse tempo.
E é por isso mesmo que a gente começa essa edição pelo São João. Porque comunicar mobilização social neste ano eleitoral passa por aí, por entender que o Brasil é feito de muitos brasis, que cada território tem seu jeito de se reunir, suas referências, suas conversas, seus modos de se comunicar. O que mobiliza no Recife não é necessariamente o que mobiliza em Belém, em Cuiabá, em São Paulo, em Porto Alegre. Quem está comunicando de cima pra baixo, com discurso único e linguagem genérica, não chega em quem precisa chegar, não dialoga com quem precisa dialogar, não constrói com quem precisa construir. E quem ignora as particularidades regionais, como por exemplo que a região Nordeste é uma região muito importante para o país, está deixando de comunicar com muita, muita gente.
E diante desse contexto, volto aqui a um assunto que está no centro da disputa eleitoral deste ano: a Inteligência Artificial.

As ferramentas de IA estão sendo usadas pra produzir conteúdo em escala, pra criar deepfakes, pra automatizar disparos, pra simular vozes, pra fabricar imagens, pra construir narrativas falsas com aparência de verdade. O TSE já publicou resoluções específicas sobre o uso de IA na campanha eleitoral, e isso é importante, mas as regras alcançam candidatos, candidatas e partidos. Qualquer pessoa, fora desse recorte, vai poder seguir produzindo conteúdo de caráter eleitoral sem rótulo, inclusive nos dias que antecedem a eleição. E é justamente aí que a desinformação encontra espaço pra circular.
Mas é importante reforçar que não é porque um conteúdo é feito com IA que ele é falso. Existem usos legítimos e uma das coisas mais importantes é entender o uso. O que precisa estar no centro da nossa atenção é a intencionalidade, a verificação, o critério editorial.
Quem usa IA pra desinformar e manipular está produzindo desinformação, e isso é um ato político deliberado.
No SXSW London, deste ano, em que marcamos presença, essa conversa esteve presente no painel “A verdade sob ataque: como o jornalismo pode vencer a guerra da informação”, no último dia 02 de junho, com o jornalista brasileiro e correspondente internacional da Globo em Londres, Rodrigo Carvalho, e Fiona Crack, Diretora Global Interina da BBC News e Diretora do BBC World Service. Rodrigo trouxe as eleições de 2018 como um case de construção de desinformação no país e Fiona destacou que a principal forma de combater a desinformação é fazer o jornalismo do melhor jeito, ou seja, com a busca da verdade. Essas reflexões aconteceram justamente na busca por respostas em como lidar com esse momento de IA. Por isso nós destacamos que a comunicação é tão importante para lidarmos com esse momento e conseguirmos colocar na agenda do dia as pautas pela garantia de direitos.
E aqui volta o São João, e voltam os territórios. Porque numa eleição em que a IA está no centro da disputa, o que continua sendo insubstituível é a comunicação que parte de quem conhece o lugar, de quem está no território, de quem entende as referências locais, de quem sabe quais são as conversas reais que circulam. O algoritmo pode até reunir dados sobre o seu bairro, mas não tem vínculo, não tem história, não tem relação. Conhecimento de dados não é conhecimento de território. E é justamente aí que a mobilização social acontece, especialmente em um ciclo eleitoral marcado pela aceleração da desinformação.
Na Angola Comunicação, estamos disponíveis pra construir com as organizações esse trabalho de mobilização para o ciclo eleitoral, e também pra apoiar a elaboração de protocolos internos de uso de IA, que pra a gente é um pilar fundamental nesse momento. Saber o que entra e o que não entra nas ferramentas, quem usa, com que critério, com que verificação, faz parte do trabalho político de comunicação que cada organização precisa fazer.

Semana que vem não tem Fuá no dia 24 de junho, por conta do feriado de São João. Neste dia queremos aproveitar o banquete de comidas de milho e tantas outras que fazem deste um festejo com ares de Natal, reunindo familiares e pessoas queridas. Voltamos com os textos no dia 1º de julho. Boas festas!
*Catarina de Angola é mãe, jornalista e consultora em comunicação. Fundadora e diretora executiva da Angola Comunicação.




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